segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Reciprocidade



Ser amiga é doar-se mesmo quando não há o que dar ao outro. É perder horas com conversas em que só há o outro e você não existe. É dizer que está bem e logo perguntar como o outro está, para logo falar das dores daquele diante de você - que são o que realmente importa. É chorar por quem se ama. É sentir culpa após a decisão de colocar-se em primeiro lugar.

Não é isso?

Durante anos, achei que sim. Nem sabia que era esta a minha forma de pensar, agir e me exaurir. Só quando dei tilt e parei de ser a pessoa produtiva e funcional de sempre que percebi a forma nociva como muitas das minhas relações vinham funcionando. Sendo mais racional do que emotiva, dava aos outros o que tinha de melhor: minha escuta e meus pitacos. O tempo todo e a qualquer hora. Quando nem isto consegui e precisei que alguém fizesse o meu papel e deixasse para mim o único trabalho de ser vulnerável e ser ouvida, descobri que poucos estavam dispostos a tanto. Sabe quando mãe acostuma mal as suas crias e só percebe isso muito tarde? Foi o que fiz com muitos amigos sem notar.

O clique só veio quando, repetidamente e durante semanas, minha prima me mandava mensagens dizendo "preciso desabafar, quando vai estar em casa?" e ignorava completamente minhas respostas descrevendo meu cansaço. Notei que nenhuma mensagem vinha precedida por "bom dia" e que ao fim de suas infindáveis histórias com o namorado, jamais veio a pergunta "e você, como está?". Após o clique, realizei uma checagem simples que você consegue fazer aí no conforto da sua casa. Entrei em conversas com vários amigos e procurei as respostas para os momentos em que demonstrei alguma tristeza ou contei sobre algum evento difícil da minha vida. A maioria das respostas variou entre "que triste" e emojis, como o famoso":/" (talvez eu tenha desenvolvido uma certa aversão a emojis desde então). Também li minhas respostas longas e elaboradas. Poderiam ser doces ou duras, mas eu estava ali. Presente.

Não sou coitada. Permiti que isso acontecesse. O que você faz quando lhe oferecem algo bom? Você aceita. Dividi a situação com meus amigos da Psicologia, que já há algum tempo são os mais carinhosos e sensíveis que tenho. Fiquei impressionada com a quantidade de relatos mostrando que essa mania de dar sem receber é típica de psicólogo - a profissão rainha do auto-sacrifício. Provavelmente foi essa forma de ser que nos levou ao curso e o status do curso acaba agravando nossas relações desiguais. E, da mesma forma como ocorreu comigo, meus amigos também estavam ressentidos com a falta de cuidado dos seus próximos. É por isso que nos cuidamos tanto mutuamente. Apenas nós sabemos do quanto precisamos que reconheçam a humanidade que há em nós.

A reciprocidade tornou-se meu novo princípio de vida, o qual proteregei até morrer. Dar e receber na mesma medida. Ao amigo que me acolhe, oferto meu coração. Ao amigo que não me olha, o mesmo. Acredito que só tenhamos uma vida e que ela seja pouca para manter uma eterna postura de abnegação. Já sigo a ideia racionalmente e comportamentalmente, mas a culpa ainda vem quando não saio correndo para atender o outro. Mas tudo bem. Qualquer tempo levado para aprendermos a nos amar vale a pena.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Quando comer muda a sua vida



Toda a minha adolescência foi passada de forma infeliz e miserável. Exceto pelos momentos em que me divertia com minhas amigas, lembro de sempre me perceber triste, feia e cansada. Todas essas dimensões, em especial o cansaço, ficaram trinta vezes mais fortes quando entrei para a faculdade. A carga de estudos aumentou, meu dinheiro diminuiu e estudar longe trouxe o problema do trânsito à minha vida. Sete anos depois daquele primeiro ano, descobri que as coisas não precisavam ter sido tão ruins. Uma coisinha simples que no fundo é tudo poderia ter mudado minha vida há mais tempo: comida.

Faz um ano que entrei em um sério programa de reeducação alimentar ao qual dei início sozinha, posteriormente pedindo dicas à uma amiga nutricionista até finalmente buscar tratamento com uma nutricionista própria. Comecei reduzindo a quantidade de comida nas refeições principais e evitando doces. Depois introduzi frutas, verduras e legumes, além de substituir os alimentos que já comia por suas versões integrais. Perdi 6kg só com essas leves alterações no cardápio. Também passei a fazer exercícios físicos e mais 2kg foram embora.

Falei sobre o peso que perdi por saber que isso é o que mais impressiona e motiva as pessoas, mas os ganhos foram enormes e múltiplos. Sempre pensei que fosse preguiçosa por sentir sono durante todo o dia. As aulas vespertinas da faculdade eram um suplício, pois sentia meus olhos fechando do primeiro ao último minuto. Não conseguia dar minha total atenção mesmo que gostasse do assunto. Hoje meu nível de energia melhorou consideravelmente e no ano passado conseguia trabalhar em vários bairros em um mesmo dia. Lembro da minha tristeza na época de faculdade, pensando se por toda a vida sofreria para conseguir me dedicar a algo durante o dia todo. Outra mudança clara que percebi foi o fim do peso que sentia no meu corpo. Era como se eu caminhasse o dia inteiro com mochilas repletas de pedras acopladas ao meu corpo, tentando ser produtiva durante a caminhada. Mesmo ainda faltando muitos quilos para estar no melhor peso para a minha altura, parece que aquela mochila de pedras raramente volta - só quando passo umas duas semanas comendo besteira. Recentemente fiquei dois dias na casa da minha tia, lugar em que o alimento mais nutritivo que você encontrará é pão de queijo industrializado. O peso voltou e meu estômago ainda está reclamando de tanta tranqueira no organismo.

Minha pele melhorou muito e também não vejo mais um certo desconforto que sentia o dia inteiro no estômago após fazer refeições pesadas - sabe aquele prato de arroz, feijão, bife, farofa e batata frita? Não tenho mais condições de comer tudo aquilo caso ainda queira ter um mínimo de produtividade durante o resto do dia. E prazer na comida sem salada não existe mais para mim, o que ainda é um grande choque tanto para mim mesma quanto para minha família. Sempre rejeitei todos os legumes e verduras do mundo e comia, se muito, uma cenoura crua fora das refeições principais. Hoje não vejo com enfrentar o verão do Rio sem um pouco de beterraba ralada para deixar o dia mais leve e fresco.

Houve um longo tempo da minha vida em que quis desesperadamente ser feliz, pois isto não acontecia mesmo enquanto eu atingia meus objetivos. Neste momento entendo que cuidar da saúde do meu corpo era tudo o que faltava para que aquilo acontecesse. Na minha concepção, ser feliz não tem a ver apenas com realizar grandes planos ou estar o tempo todo em movimento. Tem a ver com tranquilidade, como falei no último post. E quando meu corpo ficou tranquilo, finalmente minha mente também conseguiu chegar lá.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Hello (is it me you're looking for?)




Um ano inteirinho. Não se chega num lugar que viu você antes de prestar vestibular, se escreve "faltam 8 dias para eu me formar na faculdade" e depois se desaparece. Eu sei. Desculpa, gente.

Acabou que me formei mesmo e as coisas demoraram para mudar para melhor, mas elas finalmente chegaram a esse ponto. Acho que eu estava cansada de relatar meus perrengues. É chato ser "a guerreira", "a batalhadora", "a determinada". Queria vir aqui com boas notícias, finalmente ser a pessoa leve que chega com boas novas.

Logo após me formar, vivi o inferno ocupacional clássico do recém-formado de Humanas. Sub-empregos muitas vezes pagando menos que uma bolsa de faculdade. Houve um momento em que me percebi trabalhando em seis bairros e passando um mínimo de três horas diárias no trânsito. Não foi nada legal, apesar de me permitir ajudar um pouco em casa - que sempre foi meu sonho de pobre. Fiquei triste, exausta, tive crises de choro e meu desempenho no trabalho caiu muito. Estava sem paciência com as crianças que atendia e não queria mais trabalhar, ver meus amigos, ser ou existir. Pensei que estivesse vivendo minha primeira crise depressiva, mas estava enganada. Era apenas uma reação rápida à loucura em que me meti no meu cotidiano. Reação clássica do corpo e da mente ao excesso de estresse: pedir socorro cada vez mais alto, até a gente ouvir. Menina prática que fiquei, logo comecei a dar um jeito de mudar isso e apenas a decisão de abandonar um dos bairros já operou milagres no meu humor. Depois o resto do horário foi se ajeitando e em pouco tempo voltei a ser a criatura pequena, amorosa e pulante de sempre.

Essa fase durou um ano e meio ou pouco mais que isso. Após a mudança de rotina para reduzir o estresse, veio nova transformação: a constatação de que eu não era mais feliz na área de pesquisa em que ainda me mantinha. Decidi que assim que pudesse, sairia dela e seguiria meu caminho fazendo apenas o que gosto. Esse passo foi facilitado quando fui convocada pelo abençoado concurso no qual fui aprovada logo após me formar. Demorou mais de um ano para a convocação acontecer, mas veio no momento exato em que eu não tinha mais opções. Foi naquele momento em que ficou claro para mim que eu poderia confiar que a vida finalmente me daria a tranquilidade que almejo desde a época de escola, quando sacrifiquei tanta diversão (e saúde mental) pelos estudos.

Agora sou funcionária estadual duas vezes por semana, trabalhando em um local tranquilo e de baixa demanda que me permite ter tempo para estudar. Nos outros dias da semana trabalho no que gosto. É difícil ser autônoma em fase inicial, porém o emprego fixo afastou minhas preocupações. Sou extremamente ansiosa desde criança e fui surpreendida por uma sensação de paz interior que eu nem sabia existir em mim. Chego ao trabalho sorrindo, ando de ônibus sorrindo e vou embora sorrindo. Sinto amor pelo mundo e pelas pessoas. No nível máximo, me percebo cantando Happy mentalmente em vários momentos do dia. Descobri que trabalhar menos horas, ter tempo para si mesma e o mínimo para pagar as contas opera milagres sobre uma pessoa. Agora estou numa cruzada pessoal para obrigar todos os meus amigos a buscarem empregos estáveis que os tirem das mil horas no trânsito.

2016 começou como nenhum outro ano jamais se iniciou para mim. Sempre tive vagas aspirações de melhoras a cada novo ano, mas esta é a primeira vez que tenho planos que de fato têm como serem postos em prática - inclusive já estou a todo vapor. Tranquilidade é felicidade. E não pretendo deixá-la ir embora de dentro de mim nunca mais.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

8 dias, muitas horas e vários minutos

8 dias, muitas horas e vários minutos: é o tempo que falta para eu ser psicóloga. Psicóloga. O som é delicioso. Não mais estudante de Psicologia. Não mais "a amiga que faz Psicologia", "minha filha, que estuda Psicologia" ou a "minha sobrinha, estudante de Psicologia". Só psicóloga.

Acho que nunca encarei um caminho tão aberto na minha vida. Posso fazer tudo e nada. Não há planos organizados e detalhados, como sempre houve para mim. Não há emprego ou pacientes me esperando; apenas a certeza de que perseguirei a carreira clínica. Opa, esqueci de outra certeza, maior que tudo: amo o que faço. O ponto principal para a escolha de uma carreira universitária foi permitir que eu ajudasse às pessoas. Não há dúvidas de que encontrei isso na Psicologia. Para além do curso em si, encontrei muito mais. Amigos leais, teorias maravilhosas, a miséria e felicidade do ser humano no encontro com cada paciente. Foi doloroso e maravilhoso ao mesmo tempo. Talvez seja por isso que esteja escrevendo isto alternando sorrisos e lágrimas. Aprender a apreciar a dor e a alegria é gostar, basicamente, de viver. Não fui à uma choppada e continuo passando minhas sextas-feiras deitada com meus livros, mas aprendi a amar a vida. Parece que a gente não tem que virar do avesso para se transformar, afinal.

A lista de agradecimentos da minha monografia ficou enorme e ainda não deu conta de todos que já fizeram algo por mim durante a faculdade. Família, amigos, colegas, gente que só vi uma vez, gente que fez algum comentário que me fez pensar: muito obrigada. Neste momento, a gratidão é maior que o medo do futuro ou a felicidade pelo presente. Obrigada por terem feito parte da minha formação como psicóloga e como pessoa. Todos vocês são co-responsáveis pelo que acontecerá em 8 dias, inúmeras horas e incontáveis minutos.

domingo, 22 de setembro de 2013

Gripes e Bombas

Já é costume eu sumir daqui, dar as caras uns meses depois e contar sobre como a vida está corrida com a faculdade, estágios e blá blá blá. É claro que isso não seria diferente no meu último semestre, mas o conteúdo do que me ocupa ficou um pouco, digamos...diversificado ultimamente.

Tenho uma vida simples. Mantê-la assim é meu plano de vida, só quero vivê-la de forma mais confortável e sem tantas preocupações. Estudo, leio uns livrinhos legais, ouço música, vejo novela quando dá; enfim, nada muito diferente do que outras pessoas da minha idade fazem. E assim continuei desde que entrei para a faculdade. Daí agora, no último ano, duas coisas surgiram para embaralhar minha vida: os protestos e o amor.

Sim, senhoras e senhores. Inalei gás lacrimogêneo e fiquei apaixonada — deixarei a seu critério a escolha da situação mais perigosa. Ainda não sei como fui me meter em nenhuma delas. Os protestos de junho foram bem inesperados. Decidi ir no primeiro meio que de curiosidade, o movimento ainda não tinha a repercussão que ganharia depois. Acredito que uns mil estivessem presentes. Só fui porque nada tinha me deixado tão movida até o momento quanto a causa do aumento abusivo das passagens. Parece estúpido, mas só quem pega o meu ônibus diariamente entende o absurdo que é pagar por aquilo, que dirá pagar ainda mais. Foi meu primeiro protesto e minha amiga-militante-badernista teve de me convencer a não desistir. Agradecerei eternamente pela experiência, já que me deu coragem para ir às ruas lutar pelo que acredito. Fui a outros pela mesma causa e também ao ato contra o Estatuto do Nascituro, além da Marcha das Vadias. Para os meus padrões, é muita coisa. Não saio de casa nem que a forma aperte.

Já o amor...ah, sei lá. Eu já notava o moço há tempos, mas era da mesma forma que notava outros. Aí falei um pouco mais com ele e vi que o moço era legal. Não, era muito legal. O mais legal de todos os moços! Quando me dei conta, não tinha mais um pingo de concentração, dormia ainda pior do que antes, só sabia pensar/falar disso e, a pior parte: respirava mal de tanto suspiro (já não respiro muito bem, então apenas imaginem). Constrangedor, mas é história real. Eu sabia que estava idealizando, que ele até era legal, mas estava bem longe da imagem de rapaz-mais-fantástico-do-mundo, só que eu não sabia o que fazer. Falar com ele não era opção séria, minha ansiedade não dá conta disso. Aí eu decidi esperar passar e fiquei triste. Muito triste. É que demora pra passar, né? Não sabia que era tanto.

Ambas as situações trouxeram coisas boas, sendo a principal o aprofundamento de algumas amizades. Nem sabia que eu gostava tanto de alguns amigos, até esse momento em que me deram colo, pão-de-queijo e acolheram a minha fossa. Desafiaram bonitinho a minha crença de que não dá para contar com as pessoas. Outra coisa curiosamente interessante foi descobrir minhas reações perante situações complicadas. Quando a polícia vinha, eu corria como se tivesse nascido para isso (agora tira isto da minha cabeça). Quando o moço vinha, todo o ar sumia do ambiente, eu sentia um soco no estômago e começava a falar as coisas mais estúpidas do mundo (é doloroso ser tão idiota quanto qualquer pessoa apaixonada). Houve uma época em que cheguei a ficar repassando todas as minhas reações corporais do dia enquanto voltava para casa. Descobri que é como uma gripe forte. Espero que isso seja um sinal do meu super e observador espírito científico.

O ruim de tudo foi minha pacata vida ter se alterado mais do que minha capacidade de processamento dá conta em pleno momento de monografia. Ela está atrasadíssima, aliás. Lição que tirei do ano: protestar e amar acabam com meu talento acadêmico. Pelo menos não me sinto estúpida protestando.