sábado, 30 de março de 2013

Aleluia, Sábado de Awkward!


Não faço ideia do que seja Sábado de Aleluia, mas se é dia de ficar em casa, eu curto. Infelizmente, tive que cumprir aquilo que a gente chama de "obrigação familiar" e vim ver meus avós. Não sou daquele tipo escroto que reclama quando tem que ver a família, mas hoje não é o dia para isso. Sabem o post ansioso de dois dias atrás? Ainda está me perseguindo. Como consequência, tenho refletido bastante e meu humor não está lá muito legal. Não gosto de ver meus avós com essa carinha azeda, mas tá difícil. Fui levada pela corrente do "O que vou fazer? Como vou começar a trabalhar? Como vou conseguir morar sozinha?". É complicado ser legal com alguém tendo tudo isso em mente.

Para não enlouquecer no feriado, comecei a baixar e assistir a uma série chamada Awkward. Vi o comercial na MTV e achei a história divertida, mas a série não é bem o que eu esperava. A coisa é mais ou menos assim: Jenna é uma adolescente daquelas que se sentem invisíveis. Ela tem um blog, que não compartilha com os amigos, onde escreve bastante e reflete sobre o que acontece no seu cotidiano. Só o blog e suas amigas sabem do seu interesse por Matt, cara gatíssimo da escola que tem um belo sorriso (comentário pessoal). Nas férias de verão, Matt e Jenna transaram durante um acampamento, de modo casual e inesperado. No retorno à escola, logo no início Jenna sente que sua vida não mudará e fica de mimimi adolescente em seu blog, como sempre. Quando vai tomar banho, lê uma carta que recebeu. O conteúdo da carta é cruel, diz que ninguém daria por sua falta caso morresse e que ela deve se expor mais. É aí que acontece o maior mal-entendido do século: seus remédios caem no chão do banheiro, o secador cai na banheira, ela cai junto e ao acordar do trauma, descobre que todos acreditam que tentou cometer suicídio. E a fama de suicida a persegue na escola.

Jenna começa uma espécie de relacionamento amoroso com Matty, que só quer ficar com ela às escondidas por medo do que os outros pensam. Como se já não fosse ruim o suficiente, tem que lidar com uma mãe que só pensa em aparência e faz todo o esforço para que Jenna não se aceite e com Sadie, uma líder de torcida "gorda" (não consigo achá-la gorda) que gosta de Matty e não desiste de fazer da sua vida um inferno.

Tudo muito bem e muito legal. Parecia ser uma série sobre autoaceitação, mas o foco foi se desviando cada vez mais disso e se voltando para os romances da vida de Jenna. Jenna com Matty, Jenna com Jake, rapazes brigando por Jenna, Jenna com inveja, alguém com inveja de Jenna...uma série com premissa boa, personagens relativamente reais e um roteiro legal se perdeu e virou apenas mais um romance adolescente. O que mais me incomoda é o desperdício das tramas femininas. O modo como as mulheres da história veem a si próprias e umas às outras é problemático e isso afeta suas relações tanto umas com as outras quanto com os rapazes. Até onde vi (quase todos os episódios), esse problema não está sendo trabalhado na raiz, que é a auto-imagem. O que vem acontecendo é, por exemplo, Jenna pular de um namoro para o outro em vez de pensar no porquê de suas relações estarem tão enroladas. 


Jenna é uma personagem muito, muito boa. Quando é zoada na escola por seus seios serem pequenos, ela sabe que o problema está naquelas pessoas e em sua necessidade de fazer com que as outras se sintam menores apenas por serem como são. Sua desmiolada mãe, por outro lado, acha que o problema está nos seus seios e que a solução é Jenna pôr silicone. Jenna pergunta se sua mãe quer que ela desenvolva Transtorno Dismórfico Corporal, ao que sua mãe responde: "você fala como se isso fosse algo ruim!". Jenna apenas revira os olhos. Como sempre, não deve ouvir sua mãe. Ela gosta de si mesma, mas todo santo dia tem que enfrentar alguém que se esforça para que ela se odeie. Sua mãe é como essa voz interna que enxerga e ressalta tudo de errado nela, e rejeitando o que ela diz (mesmo ficando em dúvida às vezes), Jenna se aceita cada vez mais. Até porque se ela ouvir o que diz, vai acabar escrava da aparência como sua mãe é até hoje.

O desperdício do potencial de Jenna me entristece, mas o de Sadie me  deixa arrasada. Aquele personagem é sensacional e fundamental. Digo fundamental porque estamos vivendo um momento desesperador no que concerne à auto-imagem: as jovens se odeiam, se maltratam e fazem de tudo para serem aceitas. Sadie "comprou" sua popularidade, pois tem família rica. Todos sabem que gordas não podem ser líderes de torcida, nem populares, nem nada que seja considerado bom. Sadie vestiu a carapuça e é tão malvada quanto uma cheeleader pode ser, e a série deixa muito claro que faz isto como estratégia de defesa. Ela luta contra o peso todo dia, não aguenta mais regular o que come, morre de medo de não ser amada e sofre por ver todas as outras meninas "perfeitas" que a rodeiam. Neste momento aqui (em inglês), ela faz um desabafo sobre sua luta contra o peso. A resposta de sua mãe é que ela deve continuar se esforçando para anotar tudo o que come. Awkward não deixa essas meninas isoladas, agredindo umas às outras como se isso fosse apenas pessoal. As mãe são assim com elas porque outras foram assim com elas e essa porcaria nunca tem fim.

Tudo isso está sendo deixado de lado durante toda a segunda temporada, que está toda voltada para o triângulo amoroso Jenna-Matty-Jake. Sério. Toda vez que um princípio de relacionamento entre Jenna e Sadie se insinua, deixam de lado e logo voltam para o romance. É bem decepcionante ver isto acontecendo, especialmente porque Jenna sabe que Sadie se odeia e se defende quando é necessário (a Sadie exagera), mas se nega a usar os pontos fracos de Sadie para humilhá-la. Vê-la descobrindo uma à outra e melhorando como pessoas seria incrível. E olha, estou há quase quatro anos vendo filmes indianos e o que mais vejo é triângulo amoroso. Vocês poderiam estar desenvolvendo essa coisa romântica de modo muito mais interessante. Tá chato, tá bobo, tá desperdício de personagens fantásticas.

A cara da Alexis Bledel.

Enfim, viram por que estou curtindo tanto Awkward? Falar da série me distrai daqueles pensamentos cansativos sobre futuro. Apesar de toda a minha decepção, o roteiro é bem engraçado e os episódios de 20 minutos parecem durar mais, de tanto que conseguem desenvolver a história nesse curto período de tempo. Além disso, é bom ver uma protagonista que escreve para tentar se entender melhor. Como pessoa que tem diários (escritos à mão, olha que vintage!), uns 15 blogs e reflexões até nas notinhas do celular, realmente adorei e me identifiquei com o hábito da personagem. Awkward é bem gostosa de se assistir e mesmo que  (por enquanto)não atenda à maioria das minhas expectativas, tem feito desse feriado um período menos angustiante do que a minha cabecinha tentou fazer.

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