domingo, 10 de julho de 2011

Sobre Rory, Lorelai, Carol e Eliz


Minha mãe e eu sempre fomos apaixonadas por séries. Desde pequena, tenho lembranças de nós duas assistindo-os em horários dos mais diversos. Ia desde aqueles das manhãs de domingo do SBT até Hilda Furacão (sim, minha mãe deixava uma criança de sete anos assistir àquilo). 

Dentre todos, Gilmore Girls é o mais importante para mim. A história do seriado é muito simples: Rory (Alexis Bledel) é filha de Lorelai (Lauren Graham). As duas vivem na pequena cidade de Stars Hollow e conseguem levar uma vida feliz e independente dos pais de Lorelai, que sempre estão em conflito com a filha, que engravidou aos 16 anos. A relação das duas é muito legal: são unidas, mas não amiguinhas. A relação mãe-filha não se perde ali. Uma tira sarro da cara da outra constantemente, e ambas vivem em seu próprio mundo de músicas, filmes, seriados e programas de televisão inúteis. Conheço pessoas que acham o seriado muito chato porque nada de muito importante acontece, mas a minha própria vida tem aquele ritmo tranquilo, então acabo até gostando dessa característica.

Eu relutava em aceitar isto quando era mais nova e sinto um pouco de vergonha em contar isto às pessoas porque me faz parecer meio boba, mas minha mãe e eu somos parecidas com a Rory e a Lorelai. Minha mãe me teve muito cedo e tudo ficou ainda mais difícil quando meu pai morreu, então estava a tornar-se adulta ao mesmo tempo em que criava outra pessoa. Esta (infelizmente) é uma situação bem comum, e por si só não serve para explicar porque vejo tanta semelhança entre minha mãe e a Lorelai. Pois bem, o que me tocava tanto em relação à Lorelai é que ela decidiu criar a filha do seu próprio jeito, não desanimando em passar seus valores à ela mesmo com toda a pressão externa para que fizesse tudo de modo diferente. Para ela foi mais fácil por ter ido morar em um lugar onde ninguém pudesse importuná-la, já a minha mãe tentava fazer a mesma coisa dentro da casa dos pais. Meu avô sempre foi tranquilo, mas a minha avó (por mais que eu a ame) sempre dificultou a vida da minha mãe, e fazia de tudo para que eu a amasse mais e fizesse tudo ao seu modo. No meio da bagunça de uma casa sempre cheia, minha mãe conseguiu fazer com que eu amasse estudar (como ela própria), que a leitura fosse meu passatempo favorito (hábito que só ela tinha), até mesmo com que eu fosse mais calma (só entende quem conhece minha efusiva família). Ela sofreu, nem queiram saber quanto (e como).

Assim que comecei a assistir ao seriado, logo senti uma ligação com a Rory. Ela era estudiosa, meio idiotinha, tinha crises existenciais porque nunca conseguiria ler todos os livros do mundo, seu maior sonho era ir à universidade. Por falar em universidade, mais uma ligação Eliz-Lorelai: assim como a Lor, minha mãe sempre sentiu um vazio por não ter frequentado a universidade, mas colocava toda a sua felicidade na possibilidade de sua filha consegui-lo. Lembrei de uma coisa bonitinha. Às vezes chego ao campus de manhã e ao atravessar os portões, sinto uma sensação muito boa, de trabalho de uma vida inteira sendo realizado naquele lugar. Aí chego em casa e ao contar à minha mãe, costumo dizer que "nós conseguimos". Não digo isto só por dizer, pois sei que tudo foi resultado do meu esforço combinado à base que ela me deu para que eu pudesse me desenvolver. Ninguém está sozinho.

Agora, se há uma coisa que tanto me faz sentir que Rory e Lorelai são parecidas com Carol e Eliz, são as conversas. Gilmore Girls é uma série cujo principal apelo está nos seus diálogos rápidos e engraçados, e as nossas conversas são assim (é claro que só nós achamos graça, mas tudo bem). É que a Lorelai é aquela das ideias loucas, enquanto a Rory só faz cara de "tá bom, mãe", e assim somos nós. Minha mãe é toda jovial, simpática, extrovetida e imaginativa, enquanto sempre fui tranquila, estraga-prazeres e a voz da realidade (e da consciência) dela. Este sistema era meio difícil quando eu era mais nova, mas confesso que funciona.

Costumo me identificar muito com personagens que sejam tudo aquilo que eu queria ser, mas os que realmente me batem forte são os que parecem comigo. Ando escrevendo bastante sobre a intensidade que o sentimento de reconhecimento nas Artes pode ter ("aquilo ali sou eu") sobre mim, e era bem isso que eu tinha com Gilmore Girls. Não digo que minha vida era idêntica àquilo, mas o que mais importava nela era parecido, então me marcou muito. Passei uns 2 anos baixando o seriado e tentando terminar de assisti-lo, o que aconteceu há poucos meses. Até agora sinto um certo vazio ao procurar outras coisas para assistir, já que passei tantos anos sentadinha vendo aquilo com a minha mãe (acompanhamos até de madrugada!). Pena que minha mãe não pôde terminar de assisti-la comigo por falta de tempo.

O que posso fazer agora é continuar vivendo novas experiências que me constituam, para que me reconheça em histórias de vida cada vez mais diferentes.

4 comentários:

*Klopper, Priscila* disse...

EU QUE O DIGA!!

MEU DEUS!!!
São tão iguais que fico espantada xD
E sei que é muito chato mas sempre que vejo um diálogo do seriado, eu falo: "Meu Deus, é muito Carol e Eliz..." e quando eu as vejo conversando, eu falo "Meu Deus, é muito Rory e Lorelai..." xD

É inevitável,juro xD

Adoro vocês (Y)

Os dias que passo com vocês são os mais divertidos UAHEUHAEUHae
Adorooo (Y)

Carol disse...

Legal que eu sempre acho parecidas mesmo, mas quando vejo alguém falando do quanto, já fico "Poxa, mas nem somos tanto...". Ô menina confusa.

Priscila Cruz disse...

1º Comentário:

Meu Deus! Você tem um outro Blog e eu não conhecia até hoje :o
e pra variar tão genial quanto todos
:OO

2º Comentário:

Eu amava Gilmore Girls quando passava na TV aberta e me identificava também =D
Minha mãe assim como a sua e a Lorelai é extrovertida, animada e muito mais jovem que eu que também sempre fui a sensata, o equilíbrio, a que tinha que racionalizar tudo...Minha mãe engravidou aos 17 e fugiu com meu pai na época e também sofreu as mesmas dificuldades, inclusive quanto ao estudo que ela teve que parar aos 9 anos, mas aí vem a parte ruím, que inclusive não comentei com ninguém a não ser o meu marido que presenciou meu sofrimento, e que foi uma das minhas maiores dificuldades esse ano e talvez para o resto da vida do meu relacionamento com minha mãe. Assim como a sua minha mãe esperava satisfazer essa impossibilidade do estudo dela comigo, queria de todo jeito que eu fizesse uma faculdade, mas ela tem a noção distorcida da vida prática e pra ela faculdade é algo que da status e dinheiro, ou seja, na concepção dela, Medicina e Direito... E eu até que tentei fazer esse Direito aí mas depois de 3 anos não suportava mais ter que gastar minhas poucas horas de folga e meu suado dinheirinho com um curso que não me despertava interesse nenhum e sem sentido para os meus princípios ( é, Direito é algo inventado pelo homem para criar mais problemas para ter que inventar mais alguma forma para solucionar o problema original....e assim vai) Então, depois de muita conversa e lágrimas dos dois lados com muito incompreensão da parte dela eu parei o curso, senti muito ao decepcioná-la e sei que vou ouvir lamentações dela pelo resto da minha vida, mas ela tinha que entender que eu não posso sacrificar tanto só para ela ter o orgulho que tanto sonhava, se ela quer algum orgulho que tenha de eu ter passado em um concurso público mais difícil que muitos vestibulares, de eu ser independente desde os 20 anos e aceitar o que eu sou e pronto.
(Aliás o meu orgulho mesmo vai ser aposentar aos 42 anos e, aí sim, poder estudar e fazer o curso que eu quiser =D )

Bom, me estendi demais, mas foi bom desabafar sobre isso. Conclusão foi no início do anos houveram muitas discussões sobre isso e nosso relacionamento ficou ruim, agora está tudo bem, mas sei que ela sempre vai ter essa mágoa e eu a tristeza de decepcioná-la. Quando li o que você escreveu senti que precisava falar com alguém...principalmente que estivesse em situação parecida. Fico feliz de saber que no seu caso as duas estão saindo ganhando, tanto você como ela estão felizes, isso é que importa!
Pode ter certeza que sua mãe tem muito orgulho de você em todos os sentidos da vida, pelo menos eu ia querer ter uma filha assim
=D

Beijos!!!

Carol disse...

Pri, moça mais bonita do mundo!

1º Comentário:

Tinha este aqui antes mesmo de conhecer Bollywood e você, como é que não conhecia, menina?

2º Comentário:

Pri, eu achava que você não estava mais fazendo Direito apenas pela questão financeira. Muitas vezes li reclamações suas sobre o curso e as mil coisas dele com as quais vocês não concordava, mas acreditava que eram como as minhas reclamações da Psicologia (ou seja: você brigava, mas gostava). Fico feliz de verdade não só por você ter tido coragem de cortar da sua vida algo que lhe fazia infeliz, como também por o seu marido ter sido um apoio tão constante. Não se preocupa com a sua mãe quanto a isto, não. Mesmo nos amando muito, às vezes elas tem essa coisa de quererem se realizar por meio de nós...esquecem que o cordão umbilical foi cortado há muito tempo. Tudo vem da maior vontade do mundo de que sejamos felizes, só leva tempo para algumas entenderem que o caminho para isto é feito - e escolhido - por nós. A minha mãe mesmo está dando um passo de cada vez no caminho de me deixar fazer o que eu quiser. Ela também não queria que eu fizesse Psicologia, mas nem dei ouvidos.

Tenho orgulho de você, Pri. E você também tem de si, o que é maravilhoso! Assim como você queria ter uma filha como eu (obrigada por dizer isto), eu queria ter uma filha como você: sensível, inteligente e corajosa.

Beijoooo!