quarta-feira, 29 de junho de 2011

Tudo começou com o menino da boate gay...

Acho que nunca fui uma pessoa de opiniões muito fortes. Sempre fico pensando que algo que a pessoa dirá poderá me convencer, então acabo ouvindo muito e expressando pouco. Na época da escola, a questão da homossexualidade às vezes surgia nas discussões do meu grupo. Na verdade, há apenas três anos eu ainda chamava de "homossexualismo", mas já no 1º período da faculdade disseram que o sufixo -ismo traz uma ideia muito forte de doença ou transtorno, como preferirem. Uma mudança na palavra pode fazer toda a diferença, mas já aviso que me nego a mudar outra vez (homoafetividade é demais para mim)!

Era uma coisa meio complexa, porque o assunto — infelizmente— envolve muito a questão da religião e o grupo tinha três evangélicas, uma católica e eu, que tinha uma crença diferente a cada mês. Pelo que eu entendia, as meninas encaravam a homossexualidade como algo errado, simples assim. Não era uma posição exatamente agressiva, hoje vejo mais como descreveu para mim uma amiga da faculdade, evangélica: "Não deixo de ser amiga de uma pessoa por ela ser homossexual, mas não acho aquilo certo, já que acredito que Deus fez o homem e a mulher, e que os dois se completam". Antigamente, minha mãe tinha uma postura como esta, que me influenciou. Desde então, mudei bastante.

A questão é que eu não sabia o que pensar. Apesar de reproduzir a opinião acima, eu não a sentia como minha. Não conseguia pensar sozinha, mas sentia um estranhamento em relação àquela ideia do ser errado. Uma coisa que me acompanha até hoje é a lembrança de um rapaz que estudava na minha sala do 3º ano. Bem no início do ano, surgiram boatos de que ele era visto em boates gays (U-A-U!). A turma toda começou a fuxicar seu Orkut, e realmente parecia que ele andava muito por aqueles lugares. Era o assunto da sala, o motivo das risadinhas. Aceitando que fosse homossexual (nunca soube se realmente era), hoje percebo como o assunto é tão escondido, e visto como tão sujo e proibido que um bando de gente de 17 anos lidava com aquilo como se fosse a coisa mais estranha do século. 17 anos, quase os maiores de idade que logo entrariam no mercado de trabalho, teriam filhos...enfim, os que continuariam fazendo a Terra girar.

Assim que entrei para a faculdade, tive contato com muitas coisas que eu nem imaginava serem tão comuns. Gente que usava drogas, gente que era bi, gente que bebia desde a época da escola, gente que era lésbica, gente que era gay. Não apenas parece que eu estava em uma bolha — eu vivia nela, cuidava dela e me esforçava para estar na minha doce bolhinha eternamente. O que o meu mundo na bolhinha não esperava era que a exposição à toda aquela diferença fosse fazer com que a pobrezinha estourasse em menos de seis meses. Não tenho vergonha em dizer que foi a primeira vez em que realmente tive contato com homens gays (as meninas se expõem pouco), e houve um menino em especial que fez com que toda a confusão na minha mente se estabilizasse. Nunca fui muito amiga dele porque temos pouco em comum, mas o mais importante foi que, graças a ele, certos pensamentos que me assaltavam desde a adolescência finalmente se organizaram. "Ei, não acho que ele tenha algo de errado. Na verdade, ele é muito legal, além de genial. Também parece ser um ótimo amigo, e sei que sempre nos daremos bem, apesar de gostarmos de coisas diferentes demais para nos aproximarmos muito. Sério, ele realmente não tem nada de errado."

Parece bobagem, mas não foi. Minha vida mudou muito depois daquilo, já que meus pensamentos ficaram abertos também em outras dimensões. Não acho que o homem tenha sido feito para a mulher e vice-versa; acho que tudo foi por acaso (ah, se minha bisavó ouvir isto!). Amor é muito mais que reprodução, e um ser humano pode muito bem sentir amor por alguém com quem não seja possível ter um herdeiro (momento sou bióloga). Como expressar  o quanto entender a minha posição em relação ao assunto transformou a minha vida? Fazer o caminho do "nossa, que estranho" ao "isto é tão amor quanto qualquer outro que você assim chame" em curto espaço de tempo pode deixar uma mente jovem muito cansada.

Agora, aos 19 anos, a situação daquele meu amigo de quando eu tinha 17 me faz refletir tanto porque está acontecendo por aí, com vários rapazes e moças. E certamente, não são todas as pessoas que estão passando ou irão passar pela mesma mudança que a minha, e estas pessoas terão filhos que talvez fiquem com essas ideias dos pais para sempre e...bem, vai ficar nessa enrolação para sempre. Assim, gente como aquele meu colega nunca terá a possibilidade de expressar muito de si. Pensar nisto me dá uma espécie de sensação de aperto. Não gosto de imaginar pessoas sendo reprimidas para sempre. Se apenas pensar nisto me fez sentir presa, tentem imaginar como é viver nisto.

Não digo que virei detentora da verdade universal, mas afirmo uma coisa: meu olhar para as pessoas mudou de um jeito muito doce. Mesmo quando dizemos que não vamos tratar mal, nosso mais leve olhar de estranhamento pode machucar uma pessoa de uma forma incalculável. Entrei num estado de "ah, quero que todos sejam felizes e amem eteeernamente". Meio bobo e irreal, mas sincero.

O motivo de eu ter escrito tudo isto é que há poucos dias estava nos Trending Topics do Twitter a tag #OrgulhoHétero, e a idiotice de tudo aquilo foi tão grande que me fez lembrar daquele rapaz da escola e de tudo o que a sua passagem pela minha vida suscitou. Para você, que estiver lendo isto e que tenha de algum modo se sentido ofendido (a) por algo que eu tenha dito: tudo o que falei foram impressões e sentimentos construídos com base minha história de vida, então é o que faz sentido para mim. Ainda estou a me construir e sei que muito ainda irá se transformar dentro de mim, mas acredito que a pessoa sem opiniões fortes aqui está decidida pelo menos em uma coisa: o público...hum... LGBT (essas siglas confundem, mas entendi que nesta são incluídos transexuais e travestis) não só merece poder manifestar suas orientações, como não tem desvio algum. Dane-se essa maldita normalidade que fere tanta gente.

E que fique claro que, neste caso, eu (des)desatinei.

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